Pretos Velhos
Mateus 11:28-30
Mário entrou no templo com o coração totalmente conturbado. Sua mente, agitada com os problemas que lhe afligiam, não conseguia organizar minimamente um comportamento equilibrado, tanto física quanto espiritualmente.
Passando pela porta do templo, a tristeza era tanta que se apercebeu que iria chorar ali, na frente de médiuns e pacientes e, assim, pensou consigo:
Vou para o Castelo do Silêncio para poder me equilibrar minimamente e poder fazer a minha preparação.
E assim o fez. Passados 10 minutos, sentiu que conseguiria fazer a sua preparação sem desabar em prantos na frente de todos, transparecendo agora uma calma, porém só aparente.
Subiu à Pira, fez sua preparação e se postou para o início da mesa evangélica que iniciaria em instantes. E, de apará em apará, repetiu quase que inconscientemente a doutrina que há tempos decorara. Não fazia de propósito ou por desleixo, mas naquele dia a dor não lhe dava tréguas, e sua atenção verdadeiramente não estava sobre aqueles espíritos ou sobre qualquer outro foco a não ser o estado de sua própria alma.
Após o final do trabalho, uma ninfa lua que participara daquela mesa começou a passar muito mal. Prestativo e intuído, o comandante da mesa pensou encaminhá-la aos tronos e buscou no setor evangélico algum doutrinador que confiava. Seus olhos se fixaram em Mário e disse:
Mário, ajude por favor a nossa irmã, indo aos tronos com ela?
Sem poder negar, nosso irmão conduziu a ninfa que, com muitas dificuldades, andou até os tronos.
Após um tempo curto de preparação, dado o estado da médium, Mário fez o convite e Pai Joaquim de Angola se assenhorou prontamente do aparelho mediúnico. Depois do protocolo inicial onde preto velho e doutrinador se identificaram, houve uma sequência de incorporações de sofredores, de modo que após isso Mário sentiu que tanto a médium, quanto as energias que circundavam aquele trabalho se harmonizaram. Neste instante, pai Joaquim de Angola disse então a Mário, enquanto apertava carinhosamente suas mãos:
Meu fio, Salve Deus... vibre com amor por estes sofredores que passaram por aqui, viu fio... são nossos irmãos...
Sei que o teu coração tá pequenininho hoje, não é? Eu vim aqui especialmente pra te ouvir, mas suncê permitir, meu fio doutrinador, vamos atender este povo que nos espera?
Mário, com a voz já embargada e meio envergonhado perante tanto amor que sentia naquelas palavras, aceitou prontamente a oportunidade de trabalho.
E, assim, viu e ouviu paciente por paciente ser atendido por pai Joaquim. A cada problema, a cada dor, a cada situação difícil, Mário se espantava como aquele espírito de luz tinha uma palavra, um gesto, um amor que dedicava àqueles que chegavam ali. Orientava sem entrar no livre-arbítrio, dava esperanças ao desesperado e alegrava o desalentado. Os pacientes saíam renovados e esperançosos e Mário, neste processo, esquecera também um pouco de sua dor.
Ao final do atendimento, Pai Joaquim de Angola convidou o doutrinador a sentar-se ao seu lado:
Salve Deus, meu fio, como suncê tá agora? O coraçãozinho tá melhor?
Tá sim, meu pai, graças a Deus...
Agora é a vez desse nego véio ouvir suncê, meu pequeno. Mas antes, leva teu pensamento a Nosso Senhor, a Pai Seta Branca e a Mãe Yara... Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo...
E assim, após aquele momento de concentração, o preto velho disse ao doutrinador:
Meu fio, nego véio tá aqui pra ouvir suncê. Fala, meu fio, aquilo que fica martelando no seu coração todo santo dia, tirando sua paz...
Mário começou então a narrar ao preto velho tudo que lhe afligia. Seus problemas financeiros domésticos, a preocupação que lhe tirava a paz em relação à educação de seus filhos, especialmente a um de seus filhos que mostrava tendências negativas em relação às drogas e, por fim, começou a relatar que a união de tudo isso, lhe retirava a alegria de viver.
Meu pai, tenho vergonha de dizer isso, mas certas vezes choro o dia todo. A vida me parece um turbilhão de dores, de modo que não tenho mais forças. Na realidade, não vivo, só sobrevivo dia após dia, tentando obter o sustento da família e tentando me equilibrar nesse rosário de dores que é a minha vida.
Pai Joaquim de Angola suspirou, ficou calado por alguns segundos, tal como se olhasse para o infinito, perscrutando as razões físicas e espirituais para aquele quadro. Assim, o nagô continuou o diálogo:
Meu fio, Deus é tão grande que nós não sabemos o que realmente Ele é. Mas sabemos que Ele é Amor. Como diz a Neiva, na Sua figura Simples e Hieroglífica. Deste modo, meu fio, tira esse pensamento triste de tirar a sua própria vida...
Neste instante, Mário desabou em um pranto de lágrimas pesadas. Pai Joaquim lhe apertava as mãos, segurando-as de modo a consolar o nosso doutrinador.
Suncê, meu fio, é merecedor de tudo que a vida tem de bom.
Sim, meu pai, mas pra que tanta dor?
Fio, quando suncê vai a estas... como diz? Quando suncê vai a um casamento, a uma festa, o que suncê encontra?
Estranhando a pergunta, Mário responde:
Ah, meu pai, espero encontrar um ambiente alegre e feliz, onde todos estão comemorando a união daquele casal.
Certo... e quando suncê vai visitar um doente no hospital, espera encontrar o mesmo ambiente?
Claro que não, meu pai, ali com certeza encontrarei a dor, mas também a esperança da cura.
Isto, meu fio... Em cada local, encontraremos um ambiente diferente. Na festa, encontraremos a alegria. No hospital, a dor e a cura. Na escola, encontraremos a educação e o esforço de que ela necessita. Na prisão, encontraremos muitas vezes a revolta e o remorso que o crime provoca em nossas consciências.
Mário ainda não tinha entendido a razão daquele ensinamento e perguntou ao amigo de luz:
Sim, meu pai, mas qual a correlação disso com a dor que passo?
A Terra, meu fio, é uma mistura de escola, hospital e prisão, de todos nós que moramos aqui... Assim, não esperemos alegrias e felicidades eternas neste ambiente. Pelo menos não agora...
E, assim, continuou Pai Joaquim:
É uma escola porque estamos aqui para aprendermos a conviver uns com os outros. Por isso nos disse o Nosso Senhor: "ame a todos como eu vos amei". Estamos aqui para aprendermos isso. Enquanto não aprendermos essa lição, vamos nos ferindo uns aos outros, causando dor aos que caminham lado a lado conosco. Assim, uma hora suncê fere, noutra hora suncê é ferido. E ferimento dói, nego véio sabe.
É por isso que Nosso Senhor manda essa montoeira de nego véio e nega véia pra assoprar as feridas dos nossos filhos, filhos também de Seta Branca e os filhos de outras paragens, enquanto não aprendem a se respeitar e se amar.
Mário nesse momento retruca:
Mas, meu pai, eu não estou ferindo ninguém agora...
É verdade, meu fio, suncê não tá ferindo ninguém. As palavras de Neiva, de Seta Branca e de Jesus entraram no seu coração, mas nem todos os seus irmãos têm a mesma compreensão... Deste modo, este ambiente de luta e de dor permeia a sua vida.
E o preto velho continua:
Mas, meu fio, a Terra é também um hospital onde curamos nossas doenças. O mal que fizemos no passado é a causa de muitas das dificulidades que a gente passa aqui.
A tua missão no Amanhecer, como doutrinador, faz parte do seu compromisso para o pagamento de seus débitos cármicos. Suncê sabe disso, meu fio...
Além disso, este planeta ainda é uma prisão... é uma prisão porque enquanto não vivermos o amor e o respeito entre nós, meu fio, viveremos a dor dos crimes que cometemos ao nosso próximo.
E o doutrinador perguntou então:
Quer dizer que não tem como ser feliz aqui?
Tem sim, mas pra isso a gente precisa seguir Jesus, precisa seguir o que Jesus ensinou... suncê lembra meu fio que o Nosso Senhor explicou naquelas palavras bonitas que ele falou em cima da montanha?
Sei, meu pai...
É ali, meu fio, que tá o tesouro que o jaguar deve procurar... pra sermos felizes, devemos ser humildes, pra sermos felizes devemos ser amorosos, pra sermos felizes devemos perdoar e sermos mansos de coração... Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo...
Quando cada fio de nego véio fizer isso, o mundo muda... ah, o mundo muda...
Mário, agora pensativo com o que o Pai Joaquim de Angola tinha falado, disse:
Mas, meu pai, eu não tenho esse amor todo não...
E você acha que tá na casa do Simiromba de Deus pra que, meu fio? Pra aprender a amar... Fio, cada vez que suncê for doutrinar na mesa evangélica, doutrina com amor, pensando no bem daquele fio de Deus que está nas tuas mãos. Quando vier pra esse toco de nego véio, pensa no bem desses fios que vem conversar com os preto véio. Quando fizer sua emissão, faça com amor pensando na multidão de espíritos confiados a ti por Deus Todo Poderoso.
Trabaia muito, fio. Sua esse colete, mas sua pensando no bem. Trata bem sua companheira, seus fio e principalmente aqueles que não gostam de suncê. Pra esses, fio, ama mais, perdoa mais e num retruca com raiva.
Um dia, essas tristeza vão embora e suncê resplandecerá cada vez mais a luz de Seta Branca e de Nosso Senhor.
Nesse momento, Mário sentiu como se tivera recebido um jato de energia revigorante. Estava pronto para qualquer luta que a vida pudesse lhe apresentar. Suas lágrimas agora eram de alegria...
Obrigado, meu pai... obrigado por tudo que me deu nesse momento...
Agradeça a Seta Branca, fio, agradeça à Mãe Yara... Louvado Seja o Nosso Senhor Jesus Cristo...
Mário, em meio àquela sensação de amor e alegria, agradeceu a presença do preto velho que desincorporou abençoando a todos os presentes e agradecendo a Deus a oportunidade de trabalho.
A ninfa abriu seus olhos lentamente e pouco a pouco foi retomando a consciência de si mesma. O doutrinador agradeceu imensamente a oportunidade à médium e ambos saíram em agradecimento aos pés da imagem do Pai Seta Branca.
Realizado, Mário decidiu trabalhar um pouco mais e foi para a Junção e depois para a Indução. Ao final desta, fez o encerramento e agradeceu aos pés de Jesus o que tivera recebido naquele dia. Na sua mente, um ensinamento de Pai Joaquim de Angola ressoava em sua mente, ele estava no Amanhecer para aprender a amar...
Após atravessar a porta do templo, à sua direita, perto da mureta do Turigano, viu um mendigo com as mãos e os pés feridos. O homem o olhou como quem pede ajuda. Mário disse a si mesmo... estou aqui pra aprender a amar... colocou as mãos no bolso e encontrou algumas moedas.
Chegou perto do maltrapilho e colocou nas mãos feridas o pouco que tinha. O mendigo por sua vez agradeceu:
Obrigado, meu filho, és um bom homem... Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão a misericórdia...
Mário acenou afirmativamente com a cabeça, seguindo seu rumo. Levantou os olhos e se fixou na cruz do colete de um doutrinador à sua frente. Voltou rapidamente o seu olhar para o mendigo que ajudara. Ele havia sumido.